sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sítio Arqueológico Furna do Estrago


Sítio Arqueológico Furna do Estrago
Funerary Bones of "Furna do Estrago" of the City Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, Brazil - Hotel Pousada Peter - Art Gallery, Olinda, Pernambuco, BrazilA Furna do Estrago, abrigo sob rocha localizado no município do Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, escavado pela equipe de arqueologia da Universidade Católica de Pernambuco-UNICAP, é um dos mais importantes sítios arqueológicos brasileiros.
Formado pelo desabamento de um grande bloco de rocha granítica, no sopé da Serra da Boa Vista durante a glaciação de Riss, o abrigo foi preenchido por blocos de rocha e sedimentos soltos pelo intemperismo físico, transportados em violentas precipitações torrenciais,  provavelmente durante a glaciação de Würm.
Constituído por um único salão de 125m² de área coberta, com abertura voltada para nordeste, o abrigo é bastante arejado, seco e iluminado. Diante dele estende-se um patamar delimitado por grandes blocos de rocha granítica, alguns contendo arte rupestre, de onde se pode observar o vale a 27m abaixo e o relevo aplanado na direção da calha do Rio Capibaribe, dentro de uma vegetação de Caatinga, característica do semi-árido nordestino.
Da sucessiva utilização do sítio como habitação por grupos caçadores coletores numa seqüência temporal de aproximadamente dez mil anos, resultou uma estratigrafia em que predominam as lentes Fire Place with Rests of Food of "Furna do Estrago" of the City Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, Brazil - Hotel Pousada Peter - Art Gallery, Olinda, Pernambuco, Brazilde fogueiras superpostas, formando pacotes de cinzas, e sedimentos finos, soltos, secos, de cor parda, fáceis de escavar, contendo restos alimentares e toscos artefatos de pedra e osso.
Há cerca de dois mil anos, este sítio passou a ser utilizado como cemitério. A estratigrafia construída pelo homem, desde o início do Holoceno, foi intensamente perturbada com a abertura de dezenas de fossas funerárias. Apenas uma área próxima do fundo do abrigo permaneceu intacta e foi tomada para estudos estratigráficos e de distribuição dos restos alimentares possibilitando interpretações paleoclimáticas.
Constatou-se que os recursos alimentares animais e vegetais disponíveis na região, e utilizados pelo homem pré-histórico, permaneceram os mesmos ao longo dos últimos onze milênios, indicando que não houve alterações ambientais significativas durante o Holoceno.
Da ocupação do sítio como cemitério resgataram-se 83 Burial from "Furna do Estrago" of the City Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, Brazil - Hotel Pousada Peter - Art Gallery, Olinda, Pernambuco, Brazilesqueletos humanos encontrados em bom estado de conservação. As condições ambientais favoreceram a rápida desidratação da matéria orgânica e a preservação da pele, dos cabelos e do cérebro em alguns indivíduos, bem como, do artesanato em palha utilizado no ritual funerário. Observou-se a persistência de um padrão de sepultamento em que os corpos eram colocados na posição fletida (fetal) amarrados com cipós e embrulhados em esteiras de folhas de palmeira, compondo verdadeiros fardos funerários. Em muitos casos as fossas funerárias estavam também forradas com folhas de palmeira. Os recém-nascidos eram depositados em pequenos cestos ou em espatas de palmeiras. Os adultos estavam acompanhados de colares e alguns levavam flautas ósseas e tacapes.
Burial from "Furna do Estrago" of the City Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, Brazil - Hotel Pousada Peter - Art Gallery, Olinda, Pernambuco, BrazilOs recém-nascidos não levavam adornos, com exceção de um que estava acompanhado de duas pequenas contas discoidais de amazonita. Em todos, adultos ou crianças havia matéria corante - ocre (óxido de ferro), triturado.
Estudos de antropologia biológica realizados sobre esses esqueletos revelaram tratar-se de uma população homogeneamente braquicéfala, de estatura média-baixa, robusta, com estado de nutrição satisfatório e boa adaptação às condições ambientais. O acentuado desgaste plano dos dentes e a ocorrência de poucas cáries nesses indivíduos indicam uma alimentação à base de vegetais não cozidos, característica observada em grupos caçadores coletores.
Este grupo humano pré-histórico era portador de patologias como a espinha bífida oculta, atribuída ao consumo de batatas tóxicas; variação numérica das vértebras (presença de uma vértebra a mais no sacro e na região lombar), conseqüência de casamentos consangüíneos, osteofitose e artrose, além de fraturas freqüentes decorrentes de quedas sobre a bacia e os pés. Em 18 amostras de coprólitos analisadas em função de parasitos, em apenas uma foram encontrados ovos de Trichuris trichiura.
Funerary Pack of "Furna do Estrago" of the City Bejo da Madre de Deus, Pernambuco, Brazil - Hotel Pousada Peter - Art Gallery, Olinda, Pernambuco, BrazilNos coprólitos foram ainda identificados vestígios de carvão, de penas, de pêlo e ossos de pequenos animais, sementes de cactos e fibras vegetais. Uma amostra continha uma falange humana, o que comprova a prática eventual da antropofagia.

Outro padrão de sepultamento foi praticado em período mais recente, há cerca de 1.000 anos, com a cremação dentro do abrigo, de um indivíduo adulto de sexo feminino. Alguns cacos cerâmicos estavam associados a esta ocupação mais recente.


The Catholic University of Pernambuco "Universidade Católica de Pernambuco" makes use of an archaeological museum, inaugurated in 1987, for spreading of the findings of the "Furna do Estrago", that continuously it is brought up to date with the results of the research.

The Catholic University of Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brazil, as well as its Archaeological Museum, are situated in Recife, with the following address:

Arqueologia A família nuclear na origem da evolução


A primeira família
Ossadas de 4 600 anos de pai, mãe e filhosencontradas na Alemanha reforçam a idéiade que o núcleo familiar floresceu e semanteve através das eras por conferir
vantagens evolutivas aos humanos
Leandro Narloch
Fotos Karol Schaver/AFP e Juraj Liptak/AFP
Juntos na morte
As ossadas encontradas num túmulo na Alemanha (acima) e a reconstituição artística da posição de pais e filhos ao serem sepultados: exame de DNA comprovou o parentesco
Uma tese corrente entre os antropólogos sustenta que um dos marcos da separação entre o homem e os demais primatas foi o advento da família nuclear. Formada por pai, mãe e filhos que vivem juntos, ela se opõe à chamada família estendida, na qual os animais andam em bandos e as relações entre membros consangüíneos se dão de outras formas. Entre os chimpanzés e os bonobos, nossos parentes mais próximos na árvore da evolução, como entre muitos outros mamíferos sociais, a guarda da prole fica exclusivamente a cargo da fêmea. Uma pesquisa publicada há duas semanas por um grupo de arqueólogos alemães, ligados à Universidade de Mainz, confirma a antiguidade da família nuclear entre humanos. O estudo foi feito com base num conjunto de quatro túmulos coletivos que datam de 4.600 anos atrás, encontrados próximo ao Rio Saale, no interior da Alemanha. Os túmulos abrigavam treze ossadas, cujas fraturas sugeriam que os indivíduos haviam sido vítimas de um massacre. Através de análises de DNA, provou-se que, num dos túmulos, pai, mãe e filhos – dois meninos com cerca de 5 e 9 anos – haviam sido enterrados juntos. Como mostra uma reconstituição artística feita a partir das ossadas, cada uma das crianças foi sepultada, respectivamente, junto aos braços do pai e da mãe. O achado constitui a mais antiga evidência arqueológica de família nuclear já encontrada e identificada por meio da genética.
Até meados do século XX, prevalecia entre os antropólogos a idéia de que a família nuclear era uma instituição apenas cultural. Ela está presente em mitos consagrados como Adão e Eva, a primeira das famílias, segundo aBíblia. Hoje se acredita que a família nuclear tenha se estabelecido por trazer vantagens evolutivas. "É provável que a família nuclear tenha sido essencial para diferenciar a espécie humana, garantir sua sobrevivência e sua disseminação pelo planeta", disse a VEJA o biólogo holandês Frans de Waal, um dos maiores primatologistas da atualidade. Várias hipóteses apontam nesse sentido. Primeiro, as mulheres não têm uma época de cio e um período fértil visível, como as fêmeas de outros primatas. Assim, elas estão sempre prontas para o sexo, mesmo na gravidez. Nas gerações imemoriais, os machos que ficavam mais tempo perto das fêmeas tinham mais chance de ter relações no período fértil. Geravam mais descendentes que os aventureiros, que só apareciam de vez em quando. A relação estável também ganhou espaço porque, entre humanos, criar um filho não é fácil. O bebê exige cuidados especiais por mais tempo que outros primatas. Em ambientes hostis, como a selva ou a savana, proteger a criança era difícil. Sob a ótica do pai, estar por perto para arranjar comida, manter as onças afastadas e garantir a sobrevivência da prole representava uma superioridade evolutiva.
Album/AKG/Latinstock
Unidos ao nascer
Adão e Eva: no mito bíblico, a família nuclear nasce com a criação do homem e da mulher

Estima-se que a consolidação da família nuclear tenha deixado marcas até mesmo na anatomia e na fisiologia humanas. Entre os gorilas, o macho mata os rivais e seus filhos para ficar com várias fêmeas. A seleção natural favoreceu apenas os gorilas de maior porte físico, que têm, em média, tamanho 40% superior ao das fêmeas. Entre os humanos, a diferença entre machos e fêmeas é de apenas 15%. Como mostra a imagem da família abraçada no túmulo encontrado na Alemanha, o instinto familiar é ancestral no Homo sapiens.